sexta-feira, 8 de junho de 2018

meditação

pra não quebrar um momento de silêncio, anotei:

ser pequeno é poder ser grande. estar vazio é poder ser completo. ter sentimentos latentes é poder ser tudo. o que passou e o que vai vir existem agora, neste momento. a tua percepção de mundo engrandece o universo. assim entendo o infinito.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O único lugar para estar



Fazendo esta foto, um garoto francês veio até mim pra dizer que me amava. Meu gesto de fazer brotar a Notre Dame das rosas que a primavera fez nascer diante dela era tocante segundo ele. Ele se desculpou pelo que disse mas quis explicar que expressar o amor era importante e que em algum lugar eu também o amava, se é que eu podia entendê-lo bem. Eu disse que entendia sim, sem me preocupar em entender bem do jeito que ele entendia. Na verdade, acredito mesmo que exista um lugar onde o amor não assusta, onde ele flui e é recíproco. De qualquer forma, concordamos e, por concordar, nos conectamos naquele instante. Eu pedi a ele uma informação que precisava pedir a alguém, informação que se fez presente como beleza em foto de primavera. Com aparência quase angelical, semblante leve, sempre, ele não demorou a sair dali, e se despediu sem nada querer levar ou deixar além do acaso. Viajando sozinha esses últimos dias, não me senti ameaçada por nenhuma presença, nenhuma aproximação veio pra subtrair, pelo contrário. Todos que se aproximaram trouxeram consigo espécies diferentes de integridade e de beleza e desvelaram uma certeza esquecida nas correrias do dia a dia, certeza de que todos estão no lugar exato para estar, que não é o certo ou o errado, é o único. Tenho uma amiga que diz que conhecemos anjos em viagens como esta, que aparecem para mostrar o caminho, trazem a pista que faltava. Surgem como a presença inesperada de certos ventos que levam o sufoco embora. O anjo que ela encontrou uma noite na Itália, uma espécie de guia ferroviário sexagenário, certamente é das maiores figuras míticas de que tive conhecimento. Ela vai me fazer acreditar que encontrei um anjo enquanto me dobrava para dar um recorte de primavera à minha mãe. Este é seu lugar preferido e, já que as rosas sempre nasceram abundantes na sua casa de infância, seu lugar preferido ganhou jeito de casa no enquadramento que, de passagem, consegui imaginar. Na distância de uma semana, deduzo que o melhor das viagens são as coisas que a gente nunca foi capaz de imaginar e que um dia superam as imaginadas, por, simplesmente, terem acontecido como aconteceram. Por terem sido necessárias ao momento, como peças de engrenagem, exatas em seu lugar exato, algumas vezes de formas estranhas e um pouco tortas, invertidas como peças chave. Impreteríveis por serem únicas.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Estado de Emergência

Hematomas, as bandeiras dos vasos sanguíneos. Os sapatos não me servem, nem adianta tentar. As bolhas nos meus pés decretaram nova greve. Não parto mais a lugar nenhum. Tempo de paralisações. Um estouro débil, vertendo para fora do corpo, lentamente, a energia de ação. Os curativos são do tamanho de uma mão, como são do tamanho de cada coração, os punhos fechados das reivindicações. Os desejos estagnados bloqueiam no corpo os canais de emanação.
Na eminência de uma grande estiagem, o coração se aperta em seu lugar. Atinge o sistema nervoso com espasmos que emitem luzes, como sirenes. Seus sinalizadores buscam atingir o céu do meu ser. Tempestades internas, alerta vermelho. O delírio do exílio, o mal estar da inércia, a febre do aprisionamento, impedem meu sono, agitam a mente. Espécies de estrelas cadentes, feito pássaros em bando, riscam palavras em neon dentro dela. Haverá combustível para a arte, haverá combustível para a criação. Haverá combustível para seguir em frente porque sempre haverá combustível ao amor.

Nas estradas e bifurcações das vias que me levam em sua direção há uma poeira dourada que se une feito imã formando setas. Juntas elas desenham no chão.
VAI

Eu sou daqui, eu não sou daqui

O triste estourar dos fogos. Ouço um helicóptero e escancaro a janela do quarto onde me encontro. O helicóptero passa sobre a minha janela, sobre a minha cabeça, sobre o meu coração. Olho para cima. O nó na garganta dificulta. Acompanho o sobrevoo triste. Imóvel, calada. Há algum tempo deixei de abrir a janela para gritar mais alto que as buzinas, mais alto que as panelas. A arte é minha forma de resistência. Hoje eu grito. Grito surdo, interno. Pra aumentar ainda o silêncio. Golpe, gigante. Eu, aqui, da janela em Curitiba, cabeça sobre o coração, impotente, diminuta. Como tantos. Acompanho Lula lá, ainda. Olhar no horizonte, luzes distantes. Um minuto de silêncio. Até que o helicóptero desaparece e o foguetório aumenta. Não suporto. Como meus pés já não suportam o coração, a cabeça. Desabam. Meus olhos turvos dentro do quarto, muito tempo. Janela aberta muito tempo. O helicóptero que passou e não volta. As palavras que não digo. Choro. Dor, pavor deste momento, nesta cidade, neste país. Muito tempo se passa, os olhos escorrem, muito tempo. Não há mais foguetório, não há mais nada. A TV na sala é nada. Nossos votos. A democracia. A constituição. Nada. A maior palavra da língua portuguesa. Lição que não esqueço. Lapso de tempo. Olho para fora em busca de sentido. Ato falho. O céu escuro mostra menos nuvens. Levanto para ver o céu sobre as ervas daninhas. Curioso. Eu sempre vi cores no brilho de certas estrelas. Pois, hoje, a estrela mais brilhante, a que vejo da minha janela, é vermelha. Hoje, presidente, cintila no céu uma estrela vermelha. E eu, e ela, estamos aqui. Resistimos. Rexistimos. Tuas humildes companheiras.

(Escrito na noite do dia 7 de abril de 2018.)


terça-feira, 6 de março de 2018

fill in the blanks

tô p&b. a blusinha laranja manchou. o sapato vermelho permanece guardado desde a última estreia. o blush não pega nas maçãs do rosto, voa como o pó que é. o colarzinho de missangas ficou preso na maçaneta da porta da casa antiga. batom vermelho só nas fotos do último carnaval. meu jeans preferido rasgou. lembro de uma calça como a minha desenhada no meu livro de inglês com legenda: torn. btw - escrevo ao lado - não são só as roupas. meus cabelos escuros mostram o rastro da primeira neve que vi cair em Berlim. faço rabiscos com minha caneta nanquim e formo letras finas nas folhas brancas. os espelhos da casa espiam na penumbra minhas camisolinhas claras enquanto elas desfilam (à la Vuitton), da cama branca aos sofás brancos, de nuit blanche em nuit blanche. as músicas islandesas que ouço, vibram nas paredes da casa e se misturam com as paisagens invernais. eu quase sou capaz de ver uma aurora boreal. mas não é sempre, não tem hora marcada. de olhos abertos no escuro, eu me vejo. nas alvoradas, durmo. tomo café sem leite. o resto do tempo tomo água transparente.

(Escrito no dia 6 de março de 2013.)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

meu poema é pra você.

em uma
xícara de café
faço correr a última gota;
viro a xícara
em minha direção
como se quisesse beber.

durante o movimento
vejo um buda
que se transforma
em uma mulher
meio princesa
meio antiga;
uma mulher
de vestido dourado.

pense na forma
de um buda
e me diga se
a gota de café
não fez um
passeio completo

eu digo;

algumas coisas
na vida
a gente descobre
não por um triz
nem por um fio
mas;
por uma última gota.

todas as imagens do mundo
foram criadas
e-s-p-e-c-i-a-l-m-e-n-t-e
para quem as viu;

você me vê?